Neo Neon: Jorge Lima Barreto

Faixas:

1. Equinox I
2. Solstice I
3. Equinox II
4. Solstice II


Design por Jorge Lima Barreto, Plancton Music & Joana Colaço


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Jorge Lima Barreto estava a ensaiar para uma série de concertos quando teve um sintetizador Korg Workstation no estúdio. Num aparte desse grande esforço pianistico nasceu Neo Neon, um trabalho de 4 composições seleccionadas, invenções sónicas sobre a humildade e o orgulho, em busca de uma nova simplicidade. Com Neo Neon o compositor/improvisador estabelece o seu idílio hipnótico, num rizoma horizontal de linhas melódicas simples, poliritmos discretos e arpeggios poéticos num ambiente quase minimal. Representa a aplicação de um conceito minimalista: deixar os sons entregues a si próprios, num apelo ao automatismo e ao subconsciente.


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Jorge Lima Barreto (Vinhais, 26 Dez. 1949 - Lisboa, 9 de Julho de 2011)

Compositor/intérprete (piano, multinstrumentismo acústico e electrónico), musicólogo e poliartista; Jorge Lima Barreto começou a praticar órgão de igreja e piano na infância como autodidacta.
Já em finais dos anos 1960, iniciaria uma carreira na música que incluiria participações a solo, em duo e em grupo, como elemento fundador e compositor de Anar Band, 1967-1982 (LP homónimo de 1977). Em Nova Iorque, conheceu e compôs com Jean Saheb Sarbib (LP Saheb Sarbib & Jorge Lima Barreto – Encounters, de 1979). No ínicio dos anos 1980, fundou com Vítor Rua o duo Telectu(1982-2008) e, com Jonas Runa, o duo para piano e computer music Zul Zelub (2007-2011) .
Estruturalista e apologista da improvisação total, envolveu-se como figura tutelar no círculo artístico e musical, lançando ideias que exploraria em estudos posteriores, tanto enquanto músico como enquanto musicólogo. Licenciando-se em História e Filosofia em 1973, os seus estudos leva-lo-iam ao doutoramento com a tese summa cum laude, classificação máxima, Estética da Comunicação Musical – a Improvisação, em Outubro de 2010. Enquanto musicógrafo, escreveria livros como Revolução do Jazz (1972), Jazz-off(1973), Grande Música Negra(1975), Rock & Droga(1982,), Breviário de Música Elec-trónica (1983), Música Minimal Repetitiva(1991), Nova Música Viva (1995), Música & Mass Media (1997), Musa Lusa(1997), Zapp, Estética Pop Rock(1999), Musonautas(2001), Jazzorama 5 (2006), entre outros.
Após o 25 de Abril de 1974, iniciou um estudo dos mass mediae da comunicologia, especializando-se na matéria relacionada com a música de todos os quadrantes, numa antropologia cultural sincrónica, escreveu vasta matéria sobre o assunto (sobre o qual as suas teses de doutoramento de 1997 e 2008 versam igualmente). Entre os anos de 1977-82, percorreu a América do Sul e os E.U.A., recolhendo material para a tese de doutoramento sobre o situacionismo musical nesses países.
No seu regresso ao país em 1982, mudou-se para Lisboa, ano em que participou na programação de diversos festivais de música, desenvolveu actividade no âmbito do jornalismo musical, realizou seminários a nível nacional e internacional, compôs música para teatro e cinema, realizou programas radiofónicos e eventos de música experimental, tocou e gravou com outros compositores/intérpretes da música experimental, realizando inúmeros concertos por todo o mundo, sendo a sua prática musical indissociável da extensa discografia registada em fonogramas em duo, em grupo e a solo.
Teve como primeiras referências o experimentalismo e o conceptualism, o free jazz, bem como outros artistas ligados ao pósmodernismo, “projecto de um manifesto neo futurista”. A sua prática musical e o processo composicional desenvolvido até finais dos anos 1980, foi associada à “música minimal repetitiva”. Trabalhou na produção de materiais sonoros, como obra aberta e estratégia de recusa de qualquer compromisso com as políticas culturais vigentes, indústria discográfica e dos espectáculos, etc., preferindo-lhes um percurso assaz independente pelos campos da interarte, poesia visual, performarte, video, cinema, teatro e dança.
A sua música, as suas apresentações mediáticas e os seus textos, por vezes muito polémicos, o seu forte carisma, fizeram dele uma personalidade reconhecida além do seu domínio da prática musical; o carácter pessoal e a diversidade das criações sónicas que divulgou, marcaram várias formas de música de vanguada. A sua prática musical foi orientada por um programa de experimentação de diferentes soluções interpretativas e composicionais, a par de uma rara actualização tecnológica.
Depois de 1986, optou pela busca de novas tipologias musicais denominadas “jazz-off”, “música mimética”, “rock-pop-off”, “nova música improvisada”, e.a. teorizadas nos seus livros ou em mais de mil artigos, bem como em propostas pedagógicas, manifestos que acompanharam concertos ou edições discográficas e/ou videográficas; toys, gadgets, objectos sonoros.
Os anos 1990 apontaram para o desenvolvimento da improvisação estruturada, no fraseado idioletal, polirritmos, agregados, clusters, sons concretos da natureza, domésticos, industriais ou urbanos, sinusoidais, ruídos, sintagmas vocais, mimese que recria imagens e códigos fora dos padrões instituidos, estilo “groove” como imitação digital do instrumento acústico, hibridações estilísticas e tipológicas , e.a. técnicas e recursos tecnológicos; colaborando com músicos como Evan Parker, T. Hodgkinson, J. Butcher, L. Sclavis, D. Kientzy, J. Berrocal, H. Robertson, G. Schiaffini,Paul Rutherford, C. Cutler, Sunny Murray, Nuno Reblo, B. Altschul, P. Lytton, E. Prévost, S. Noble, G. Hemingway, Han Bennink, Elliott Sharp, Ikue Mori, Sei Miguel, Walter Prati, Reina Portuondo, e.a.; que resultaram na edição de diversos fonogramas.
Jorge Lima Barreto foi o epónimo musical português ligado à performarte, desenvolvendo situações sónicas, corporais, cénicas e psicodramáticas; interacção de música electronic live com a poesia, poesia concreta, fonética, infoarte; música para teatro, cinema e video arte; articulando o material sonoro e o fonograma enquanto objecto estético. Foi igualmente o epítome de uma vanguarda, exemplo significativo da música experimental, inventio poliartística, “trajectória rizomática da obra aberta”, “apologia da intuição e do
prazer do instante” (sic), ficando na história da música como um dos mais profícuos músicos e ensaístas a
debruçar-se sobre música de hoje, recorrendo a um universo lexical próprio como artista e pensador: “praxis
gestualista; aventura pós-moderna”... “a música como amor e liberdade”...(sic).


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PRESS:


JORNAL DE NOTÍCIAS
Trabalho a solo de um músico com uma carreira de mais de 30 anos de total independência artística, "Neo neon" traz-nos Jorge Lima Barreto no seu melhor, com uma recordação daquilo que foi a arquitectura sonora dos Telectu.
Aqui está base de uma sonoridade peculiar marcada pelo minimalismo e, acima de tudo, por uma atmosfera planante. Quem não está identificado com a linguagem estética de Lima Barreto deve correr a ouvir este documento, onde está um testemunho fundamental da música criada por portugueses, nas duas últimas décadas.
O teclista e improvisador teve de adaptar a sua sonoridade à moderna tecnologia da workstation que utilizou em mais de hora e meia de gravação, da qual só utilizou cerca de 30 minutos para "Neo neon".
Os sons mágicos que brotam dos dedos de Barreto funcionam um pouco como uma máquina do tempo para quem acompanha a carreira dos Telectu desde há 22 anos: neles identificamos paisagens de "Belzebu", "Off Off", "Performance", "Halley", entre vários outros. Ao mesmo tempo, julgo que é ainda de realçar outro aspecto desta proposta: a forma como a sua música se apresenta acessível. Não é necessário possuir um ouvido particularmente instruído para a apreciar a beleza e a honestidade deste registo.O fruidor devedeixar-se planar, sem qualquer tipo de preconceito, com os fluidos que as colunas do seu CD jorram como se se tratasse de cataratas electrónicas .
A música produzida em Portugal precisa de discos destes: é com eles que, se calhar somente daqui a muitos anos, se fará a História. Uma chamada de atenção para a capa, de autoria de Silvestre Pestana, recente vencedor do grande prémio da Bienal de Cerveira.
Rui Branco, in Jornal de Notícias

MONDO BIZARRE
Jorge Lima Barreto, crítico, teórico e músico pertencente aos Telectu (com Vítor Rua) tem já uma longa carreira artística e académica, iniciada nos anos 60. A ele se deve, em grande medida, a divulgação em Portugal (através de programas de rádio e livros) de muitas correntes de música contemporânea de vanguarda, como a improvisação, a electrónica experimental, a electroacústica e, sobretudo, a música minimal repetitiva, que teve nos próprios Telectu, os primeiros representantes nacionais desta estética musical que celebrizou Philip Glass, Terry Rilley ou Steve Reich. Ora, Jorge Lima Barreto, sem o apoio criativo de Rua, lança-se num disco a solo (gravado em 2000, mas só editado em 2003), no qual compõe e interpreta quatro peças de música electrónica. E é uma electrónica minimalista, em texturas rítmicas rodopiantes e repleta de adornos e padrões melódicos que vão progredindo a pouco e pouco e se vão sobrepondo uns aos outros. Uma técnica de composição, de resto, recorrentemente utilizada pelos compositores minimalistas norte-americanos. Não há aqui lugar a grandes rasgos de inovação estética, mas nestas peças encontramos, de facto, essa característica tão comum nos primeiros trabalhos do dúo Telectu: a capacidade para, mesmo recorrendo a metodologias de composição já conhecidas, conseguirem criar interesse e motivação no ouvinte. É esse também o caso deste Neo Neon.
Vítor Afonso, Mondo Bizarre nº. 18 de Março de 2004